quarta-feira, 18 de setembro de 2013


Com excesso de carga e passageiros o barco Ana Maria VIII naufragou, perto de Manicoré, no Rio Madeira, matando 61 pessoas. Há quase 15 anos os familiares pedem o  julgamento dos culpados, que continuam impunes e agindo no mesmo barco


A MORTE PEDE JUSTIÇA


O rio que na Amazônia comanda a vida, mas nunca tem o sentido ou sentimento de  promover a morte mas, por ironia, quando isso ocorre, nem sempre devolve os corpos para seus familiares destinarem à local digno na terra. A navegação são portos de partida e chegada e os barcos representam apenas o instrumento de mobilidade que não pode ter falhas nos motores e, muito menos, irresponsabilidade dos seus proprietários ou comandantes na ganância do faturamento e na avareza da economia assassina.

Os rios da Amazônia têm nomes, possuem traçados diferentes, calhas maiores ou menores, mas todos permitem uma navegação tranqüila e segura, sem acidentes ocasionais. Há sempre a culpa humana nas tragédias, pois até os temporais podem ser evitados, quando se vive um momento de tecnologia de ponta e equipamentos de elevada eficiência. A canoa de madeira, pilotada pelos remos do pescador ousado, busca a margem quando as águas se encrespam e ameaçam. Os barcos maiores devem seguir o exemplo da prudência e da prevenção e fazer o mesmo.




Culpar o rio pelo acidente é como apontar o asfalto de uma estrada como pivô de um desastre como mortes. O culpado está entre o volante e o banco do motorista.

Foi assim, sem tirar nem por, a tragédia do Barco Ana Maria VIII, que realizava a viagem tradicional no rio Madeira, levando cargas e passageiros, em águas sem turbulência e sem perigo. Ocorre, e aqui está a irresponsabilidade, o barco estava com excesso dos dois: de passageiros, que chegam a 131 e de carga, passando de todos os limites, conforme depoimento dos passageiros, de forma unânime.

Dos 193 passageiros 18 morreram e seus corpos foram transladados para suas famílias, mas 43 foram dadas como desaparecidas. A capacidade do barco era de apenas 160 passageiros, o que revela o excesso criminoso.


CARA DE PAU

Quase 15 anos depois, sem oferecer qualquer assistência, ou até mesmo uma palavra de consolo, os donos da embarcação tiveram a petulância de afirmar que não havia excesso de carga e que o volume era de peso pequeno, apenas com verduras, como se fosse possível uma carga de verdura, sem acondicionamento suportasse uma viagem de escola pelos municípios do Madeira.

Mais ainda: com a cara de pau da ganância retiraram o barco do fundo, fizeram a recuperação com alto investimento, mudaram o nome e continuam faturando mantendo viagens no mesmo roteiro de antes. Os familiares dos 61 mortos também continuam do mesmo jeito: com a dor, lágrimas de saudade, lamentos de aflição, mas agora com um sentimento novo: a raiva pela enganação, o ódio pela impunidade e o desejo obsessivo por justiça.

Com processo aberto também contra a União, que tem o dever da fiscalização para evitar que acidentes aconteçam e contra os proprietários que colocam vidas em risco por conta de faturamento maior, as famílias insistem na pergunta que não  quer calar: “porque o processo demora tanto, porque não há julgamento, porque o crime tem de continuar sem castigo?”


 REAÇÃO

Acostumados a reunirem-se apenas para rezar pelos entes queridos, os familiares querem agora unir-se contra a impunidade e estão dispostos a realizarem movimentos, acampar no Ministério Público, levar o caso ao Conselho Nacional de Justiça- CNJ e, se for o caso, até mesmo invadir o esqueleto do barco assassino Ana Maria, agora com outro nome, mas com as mesmas impressões de  anjo da morte, do dia em que, pela avareza dos seus donos, levou à morte 61 cidadãos.

O primeiro passo é uma carta aberta ao Ministro da Justiça, assinada por uma das mães de vítimas, (leia texto nesta página), mas que é apenas o inicio de uma ação de todos pela justiça e pela dignidade.

Escrito por Ana Rúbia até um livro já foi editado sobre a tragédia. 


6 comentários:

Emerson Medellín disse...

Olá, Ana Rúbia, me chamo Emerson Barbosa, sou jornalista e trabalho na emissora de tv Rtv! ro.Conversando com um sobrevivente desse barco me veio a vontade de contar essa história. Quero saber como estão os sobreviventes. Como ficou a situação?

Tem como me retornar....

medellinemersonbarbosa@gmail.com

Unknown disse...

Eu me lembro desse barco eu já andei nele trágico.

adailton souza disse...

Eu me lembro desse barco eu já andei nele trágico.

Biah disse...

Sou um dos sobreviventes deste barco e hoje sou coordenador administrativo da APAE de Humaitá!

Lidiane Cardoso disse...

Minha mãe faleceu neste acidente. Minha vida mudou depois disso. Um sentimento de revolta sem tamanho ao ver como as leis não são para todos.

rejane cruz disse...

Com meu esposo Gilmar e meu filho Gustavo somos sobreviventes desta tragédia que nos atingiu tirando as vidas de meus dois outros filhos:Gabriel e Guilherme, gêmeos de dois anos e quatro meses.